Cemitério quer seguir exemplos de outros em Paris e Buenos Aires e virar ponto turístico.

Além dos tours pela aleias e sepulturas, o cemitério ganha, no início do mês que vem, uma sinalização especial com QR codes impressos em placas de aço nos jazigos de cerca de cem personalidades de diferentes áreas, como teatro, política e música. Os códigos de barras dimensionais, que podem ser escaneados por celulares e tablets com internet, darão acesso a informações detalhadas, incluindo fotos e vídeos, exatamente como outras experiências já bem-sucedidas nos Estados Unidos e Japão.

Com os códigos, que estarão disponíveis também para quem deseja registrar a história de seus familiares, a aposta é que o São João Batista vire uma referência em turismo, como já acontece em outros cemitérios do mundo, como o Père Lachaise, em Paris, a Recoleta, em Buenos Aires, e o Saint James, em Londres.

RIO - Nos finais de semana, a programação dificilmente ultrapassa os limites de Piabetá. É ali, no distrito de Magé, na Baixada Fluminense, que Jaime Gouveia passeia com a família e vai ao churrasco dos amigos. Apesar do jeito expansivo, ele prefere não falar sobre seu trabalho até mesmo para os mais chegados. Entre os vizinhos, contam-se nos dedos os que sabem o que ele faz de segunda a sexta.

— Quem vai querer papo com alguém que trabalha no cemitério? — pergunta Jaime, de 41 anos.

Há duas décadas, ele bate ponto no São João Batista, em Botafogo. Primeiro, como capeleiro; depois, como carreteiro. A curiosidade pelos famosos enterrados ali, como os compositores Ary Barroso e Bezerra da Silva, o pintor Cândido Portinari e o escritor Carlos Drummond de Andrade, levou Jaime de volta aos estudos. No fim do ano, ele termina a faculdade de História, feito que já lhe garantiu cargo novo: monitor das visitas guiadas que começam na próxima quinta-feira.

— Parava na frente do túmulo do Floriano Peixoto e aquele nome não me dizia nada. Hoje, saber da vida dessas pessoas é uma questão de honra para mim — conta Jaime, cuja celebridade preferida é Augusto Severo, um dos pioneiros da aviação brasileira.

Além dos tours pela aleias e sepulturas, o cemitério ganha, no início do mês que vem, uma sinalização especial com QR codes impressos em placas de aço nos jazigos de cerca de cem personalidades de diferentes áreas, como teatro, política e música. Os códigos de barras dimensionais, que podem ser escaneados por celulares e tablets com internet, darão acesso a informações detalhadas, incluindo fotos e vídeos, exatamente como outras experiências já bem-sucedidas nos Estados Unidos e Japão.

Com os códigos, que estarão disponíveis também para quem deseja registrar a história de seus familiares, a aposta é que o São João Batista vire uma referência em turismo, como já acontece em outros cemitérios do mundo, como o Père Lachaise, em Paris, a Recoleta, em Buenos Aires, e o Saint James, em Londres.

Inaugurado por Dom Pedro II em 1852, numa época em que as pessoas eram enterradas nos terrenos das igrejas, o São João Batista reúne obras de arte de diferentes estilos, de neoclássico a gótico, que receberão também sinalização especial (veja outras curiosidades no quadro desta página). Esculturas de Rodolfo Bernardelli e Humberto Cozzo estão entre os destaques.

— Vai ajudar o nosso trabalho, né? Tem gente que entra aqui e faz umas perguntas que a gente não entende. Ontem mesmo tinha um grupo de japoneses aqui — conta o coveiro Geraldo Magela, de 52 anos, 33 de profissão e muitas histórias para contar sobre os enterros que testemunhou, entre eles os de Chacrinha, Clara Nunes e Cazuza.

Os passeios pelo cemitério de Botafogo serão gratuitos, com duração de até três horas e acontecerão mensalmente depois de agendamento prévio por e-mail ou telefone. As datas serão divulgadas no site do São João Batista e os grupos terão até cem participantes e serão guiados pelo historiador Milton Teixeira, um dos precursores no turismo cemiterial na cidade.

— Em 1994 comecei a organizar turmas para visitação e enfrentei muita resistência para dar continuidade aos encontros. Mas não desisti. Este é um lugar que reúne histórias, obras e nomes importantíssimos para o país. As pessoas precisam conhecê-lo não só nos dias das despedidas — acredita Milton, criador do novo roteiro.

Outra novidade está marcada para domingo que vem, Dia de Finados: sósias de figuras célebres enterradas no São João Batista, como Santos Dumont e Chacrinha, estarão circulando entre os jazigos. Quem conta a ideia, com orgulho, é Lourival Panhozzi, diretor da Rio Pax, concessionária que administra o cemitério desde agosto, depois de mais de um século de comando da Santa Casa.

— Tudo isso está sendo feito pela preservação da memória e para que a presença no cemitério seja uma experiência agradável — ele justifica.

No quesito preservação da memória, o mausoléu da Academia Brasileira de Letras (ABL) é parada obrigatória na visita. O amplo espaço fica no fundo do cemitério e tem o mesmo guardião há 20 anos. Francisco Pinheiro Filho, de 67 anos, fazia pequenos serviços de manutenção em túmulos quando foi chamado para trabalhar exclusivamente no mausoléu onde estão enterrados cerca de 70 acadêmicos. Desde então, entre uma limpeza e outra, uma ajeitadinha numa letra de alguma lápide, Francisco mergulha na obra dos autores que ouviu falar pela primeira vez ali. Já leu títulos de José de Alencar e Machado de Assis, mas confessa que achou “O Ateneu”, de Raul Pompéia, um tanto quanto rebuscado.

— E também tem aquele autor que gosto muito… Quem está mesmo no 14? — pergunta Francisco para um outro funcionário, que dá a resposta num piscar de olhos. — Isso mesmo. Lima Barreto. Ele não está entre o pessoal que eu cuido (no mausoléu da ABL), mas gosto muito dos livros dele. Não entendo como demorei tanto tempo nessa vida para conhecê-lo.

 

POR ROBERTA SALOMONE / Fotos: Fabio Seixo / 26/10/2014

Veja na Revista do Jornal o Globo

 

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